quarta-feira, novembro 30, 2011


Era uma vez um Samurai. Principia-se assim desta forma duplamente tradicional.

Há pois todo um leque de tradições que se desdobra. Numa cadenciada abertura, empresta ao ar a clássica brisa ligeira de Primavera. É daqueles leques cujas dobras contém pequenos círculos coloridos, e uma figura central de uma ave contida num outro círculo um pouco maior, ou foco.

Por qualquer propriedade mágica, vai reportando ao verde das colinas do Japão e a um inteiro vento que sopra de sob as anteriores lufadas de ar. Um e outro abanão mais vigoroso ou arritmado despedaça a camada envernizada do sítio anterior, onde era o leque e a realidade teórica.

Súbito, diante, todo um ancestral vale nipónico o grande jardim em bruto, a Natureza - arte terrena o espaço de ser, e raízes e arbustos. A nitidez.

Soergue-se um Samurai de entre os pinheiros para um trilho mais aberto que descende onde é a imensidão verde e o céu aberto. A poucas milhas, de onde ele veio, há pendões quebrados por uma clareira oculta na vegetação mais interior da colina. Dá para perceber pelo seu cambalear que se travara uma batalha. Entanto, há algo de sereno no seu rosto marcado por cicatrizes antigas.

Junto a um tronco recupera um pouco o fôlego. Assiste nisto a uma cena simples que por algum motivo o comove.

Uma criança corre entre os prados abaixo. Ante ela, uma garça branca que ascende. Corre movida pela energia e pelo fascínio, os quais persegue acelerando entre os bambús. Rumo ao horizonte com o qual a garça se funde. O branco a côr da inspiração. Cumpre com os seus pulos ainda este ensaio de sonho, os braços bem esticados e as mãos bem abertas.

Observa complacente o Samurai do presente este poético retrato de a infância estar presente. Neste percurso pela paisagem acidentada, uma criança persegue o vôo da garça. Algures num vale em que são remotos os feudos e a civilização, essa breve inconsciência reproduz na alma do Samurai um sorriso igual.

Por algum motivo, a sua vida passada atravessa-se também no momento e desfilam algumas recordações. Lembra-se das suas batalhas. De quando a loucura afirmou a sua defesa, uma espada a levantar. Ser Samurai o recurso maior. Do que ninguém respeitava, soerguera-se a sombra da lâmina afiada. A imaginação e a identidade encontram o escape na distinção, na loucura, ou na presunção delas. O resultado evidente, o recato maior nessa mesma diferença ou isolação. Os tempos são Meiji. Mas ao menos a viva aspereza de suster uma cruzada fez-se sentir no pulso, uno e refortalecido. E as mil perseguições conduzidas pela Guarda Imperial... e a respectiva resistência... E as viagens várias a que se entregara pelas aldeias da região, peregrino solitário entre muitos. E os templos budistas de adoração e estatuária em que seguidamente se deteve. E a alternância cada vez mais acentuada destas duas faces de moeda. Até ao dia de voltar a afiar a espada e travar outra batalha.

Já a graciosidade da ave que se eleva pelos ares arrebata qualquer um de sua mónada.

Há simetria na corrida curva e solta do rapaz pelos prados face ao arco que desfere a garça em antecipação de procurar nova rota, para onde os rios fluam e cumpram com o fluxo a sua sede. Por sobre o míudo que estrebucha lá em baixo, à pequenez da aérea distância um mais ser qualquer incapaz de voar. Por um instante é manifesto entre o bater de asas suave e firme um certo instinto do afastamento, dados os movimentos menos óbvios do petiz. Comum defesa genética ante eventuais confusões maiores. Na realidade do equívoco dela, tais desvios e precipitações pintam sob os céus mais uma variação da beleza da dança deste ser alado. Porque são sinceros. Porque são apenas sinceros. Porque não são outra coisa que simples e sinceros, no claro e definido que precede e é o do vôo continuar.

Num outro lado da vastidão que é a paisagem, a calma pensativa ou a tendencial reserva do Samurai pouco poderá apôr às árvores do bosque. Não mais se retém a viagem da garça, que sobrevoa por fim. A estética auto-contida nas observações do ferido em combate - um reencontro com o rapaz que corre os seus motivos simples, e uma apreciação ao de leve da consonância da garça com os céus e os ventos. Do que é reprodutível disto, a arte do quadro que consiste na essência do resto. Não releva, não é meio nem é fim, mas é inevitável que exista, por haver espírito, este suspiro Caeiriano de traçar com a vista as pinceladas simples que são a criança a tentar o entendimento físico do azul dos céus ou a alvura sublime de os atravessar. Por haver espírito, e se o ter embebido de algo de novo e belo, há antes de mais que deixar expirar o fantástico desses traços ou contornos (óbviamente por expirar), neste que é também e ainda um alternativo acompanhamento estático da criança a correr.

Percebe-se entretanto um pouco mais da serenidade, quase doçura, com que o Samurai fita e transcreve em seu olhar a criança ora ofegante e de mãos nos joelhos. Ele está resoluto. As suas mãos procuram o tantô. É um olhar de despedida.

Porque ninguém lhe deve a continuação de uma batalha proscrita. Porque não há direito a exigir que se feche os olhos à derrota tida. Menos ainda a retomá-la com base em respostas ou argumentos mais. Que quem lhe desferiu o golpe terá as suas próprias batalhas para travar. A batalha era tudo o que pedia. A batalha foi tudo o que teve. O cenário não podia ser mais perfeito, a oposição não podia ser mais apropriada. Não há nada para vingar, nem houve jamais.

O sangue que escorre dos membros do Samurai traduz-se em reminiscência de dôres antigas.

Da parte da derrota que é relativa ao inimigo, subsiste apenas uma melancolia semelhante à da ave descrever uma curva exterior na sua migração itinerante.

Hoje caiu, tropeçou, e arrastou-se pelo chão. E, após repousar sob um pinheiro, teve um esgar de alma afinal ponderado, não feito do desespero ainda que este estivesse lá. Opção, e um tudo nada de altruísmo - o antigo e nobre reduto - Seppuku.

O seu corpo enfim cai com um baque digno de um animal de porte. Num desfecho porém que sintetiza a diferença de ser humano, e que o faz transcender um desses outros animais parados e subservientes. Arrepende-se o Samurai do desfecho? Por certo, pois não o quis. Mas não se arrepende o Samurai de si no desfecho.

Como sempre, agradece-se ao próprio verter do sangue a possibilidade que este lhe oferece de depositar pelos verdes solos desta nação perdida nas eras, uma mais marca de passagem. Rubra e quente como um pôr-do-sol.

E de todo o exagero que se põe na vida e na arte, de todo o não ser mais que metade o que se escreve ou tenta, de todo o floreado e de todo o erro, acresce por fim um sentimento claro e inteiro. Uma última expressão do sol, quando tudo perde a côr, e que consegue ainda surpreender o Samurai nesse seu abandôno.

Felicidade.

Porque tal como o vôo da garça se não abate no além, paira a noção de que há uma outra simetria - ela também já foi humana. Em todas as suas limitações. Em toda a rasura da sua condição. E constata-se qualquer coisa mais que a fineza da curvatura do seu pescoço esguio na velocidade do seu vôo, mais que a envergadura e a beleza de suas asas, sob a frieza cândida com que almeja o céu o seu olhar, e que decorre de ela já ter sido humana, e de o ter sido muito mais do que à vista desarmada pudesse aparentar.

É na partida do guerreiro que chega a confirmação, sem pensamentos nem dúvidas, e irreversívelmente, da equivalência de espécies. Sob a forma de felicidade por uma garça ter aprendido a voar.

domingo, novembro 27, 2011


Saio enfim à rua. Um sol grande cumprimenta-me a dôr de cabeça. Como uma carícia que guarda em si uma certa aspereza por ter deixado a manhã passar. E as côres intermitentes que se colocam aos poucos em fase, num background anónimo... Como numa fotografia exposta em demasia, da qual se deixa esbater o relevo e o além.

De retorno ao quadro soalheiro, consistente em a passada recordar-se da calçada estar ali, a noção branda de perpassar a vida da cidade. E é mais um fim-de-semana que se escorreu no recosto de uns lençóis, como fios de água que se entrenham entre as pedras e se precipitam para o esgoto. Na lateral do caminho, faíscas de sonho ora as beatas extintas por aqui e por ali.

Impõe-se o dia e a vida. Se tivesse que fazer uma peça grega em que um personagem simbolizasse a Morte, chamar-lhe-ia Domingo. Mas não são esses a era e o papel que me estão destinados. Devo hoje sim assentar ao de leve na passagem, encabeçar a máscara de estar de passagem, pelo tempo estritamente necessário até retomar o posto de observação do qual então extrair este trecho. Paisagem ruela de atravessar dois pólos de no fundo a mesma habitação - a do costume.

Ir buscar sim, à Grécia Antiga, alguma estátua do Propósito. Essa sim, a verdadeira meta possível por este não percurso ou descrição. Um outro roteiro de um qualquer místico cruzeiro, e uma qualquer ondulação mágica que então aporte a novos cais ou planetas. Articular então pelas entrelinhas a missiva de uma partida próxima.

Ensaia-se nesta bilheteira que é ainda as traves de uma outra e os pregos, por tatuar na rotina da madeira essa tal aquisição. Veremos talvez um dia o que o nevoeiro do oceano nos reserva. Para já, vive-se este seu sôpro dissimulado pela realidade urbana. E imprime a sua fuligem um distante esboço de arquitectura e embarcadeiro no invisível do lugar.

(Da noite já alta de 22:)


Calcorreio.

Divago.

Prendo as mãos e os pés. Sem dar conta disso.

Bolas, e agora? Estou amarrado na cadeira e chama-se desnorte o meu carrasco.

Grande, opulento.

Não só o tédio que entretanto se entrenha, o principal inimigo sou eu. Uma desatenção ou interferência desnorteou o percurso e quedo-me ali naquela esquina que é sobreposição de hologramas de cidade.

Sem me dar conta, não consigo.

Aúúú.

(Da noite já alta de 22:)


Apagar tudo é o remédio?

Mas... e a seguir?

Diria que é só uma forma de pautar a actividade de estar a olhar para o vazio.

Da mesma forma que martelo cadenciadamente estas teclas. Sim, dessa mesma forma.

Em termos de erros é preciso repetir essa mesma análise.

Não concordas, meu?

Nah. Seria fácil.

Esta é de resto uma hora fácil. No sentido em que se opõe ao difícil. Mas. Sem mais desvios:

Meus caros, eu quero é saber o que fazer deste incontrolável.

Que me impele a zás zás e a mais zás e até a mais...

Zás a mais.

Repetição o motor? O trecho imediato, mais de todos imediato, em termos da facilidade com que o motor de inferência encontra ou estabelece como resposta - uma vez que está ali à superfície da memória.

Trata-se no fundo de desaprender a mania do contexto. Sim, esse drama.

Lubrifiquei a chama, e ela ribombou antes de fazer um ruído pasmo.

Adociquei a hora e ela trouxe-me este vendaval de pequenos monopéptidos.

Quero urinar do alto de um prédio. Esta sim é a minha resposta para a desolação que todos vivemos hoje.

Nenhures vive por violentar.

Existe prédio no drama.

Como ultrapassar a noção escrita da escrita? A inflexão da reflexão? Como?

Desmoronar a sequência. Porque há xilofones nisso.

Preencher o vazio de corropio.

Exaurir a meta ou metáfora. Que é e que somos.

Minha nossa senhora!

Debicai livremente, pássaros de nenhures, sítio universo. Extravasai as mãos que vos sustêm. Aúúú. Uivai até, desafiantes. Desafiantes da condição vossa.

Aúúú.

(Da noite de 22:)


Salas que dão para outras salas. Da arte a arte é querê-la. É a sombra impressionista de algo, a atravessar as salas de um castelo que se diria interminável... Perdendo-se a arte sempre que se fecha a porta. Dormindo-se a arte sempre que a escuridão da hora avançada a absorve.

Temíveis são os passos que as trevas propagam, à nocturna melancolia do castelo e sons de pêndulos, passos de aterradoras criaturas cujos vultos híbridos de lobo e homem passeiam pelos telhados. Podemos chamar de mero exercício de lúgubre, como quem diz "é só um filme, é só um filme, é só um filme". "Vai tudo correr bem, vai tudo correr bem". Mas podemos entrar por ele adentro, habitar nele, ter insónias nele e tremer até aos ossos.

Filme de autor que marca e demarca o raciocínio de estar, mas que rápido é outra pele que cai à hora de apagar o projector e deixar arrefecer as queimaduras. Carne-carvão que relaxa e adormece Inverno dentro.

Antes do tempo o tempo do antes. Momento inclinado numa travessia paradimensional do conceito de atravessar que é em si fim de si.
(Da noite de 15:)


Após remexer do caldeirão n emoções acumuladas em seus fundos, e deixá-lo transbordar um pouco, é difícil interromper a sua fervura. Da rotina repara-se que falha de novo a distracção.

Busco pequenos trechos de arte para carimbar ou lacrar o desconsolo da noite, envelope cuja mensagem fria é estar vazio.

Da lacra derretida em vácuo, algumas queimaduras bem patentes.

Principalmente a insuficiência de tal escape (ou deste, lugar tão comum).

Toda esta sopa, e um só estômago indisposto...

sábado, novembro 12, 2011


Timbres negros os contornos
da funérea procissão.
Marcha sem real razão.
A loucura e os transtornos

em forma de símbolos môrnos
do desespero sem causa
na tempestade sem pausa
de uma poesia a transpôr-nos,

emoções negras e trompas
a soá-las estrada fora.
Circunstância e pompas.

Extravagância soturna sem pudôr
de majorar do sofrer a Hora:
além-ânsia, da violação o ardôr.

--

Possessos seres os grifos.
Esvoaça-se todo o Egipto
de amplas asas e um grito.
Fendem da ânsia os cacifos.

Morte alada que sobrevoais
espectros de mitologia
e a ainda maior fantasia,
rapinar humanos; ódios tais.

Encabeço a figura da ave.
Justiça com as garras proclamo
e a carne não lhes é entrave.

Fado merecido p'la arte trucido,
que até o próprio Zeus, meu amo,
p'ró homíneo banquete convido.

--

Pinturas de côr desalmada.
Limpa-se o vermelho do queixo
e a figura em arte deixo
da proibida fome saciada.

Sobre a negrura é alada
a rima-vingança atroz,
do poeta a terceira voz
misantropia consumada.

O tempêro quente do excesso
é o sangue na noite gelada
a irrigar malhas que teço

tôrno à hora fria do ingresso
p'la Catedral que é o Nada;
À dôr e à raiva agradeço!


Grafias e grafismos fáceis. Deixa-se trilhar a inespecífica missão do deixar trilhar-se, adocicando a impaciência de alma. Faz-se.

Uma criada que traz uma agradável taça de laranjas frescas.

Reúnem pois o farto cabelo do Marquês e o agudo discurso de seus convidados, em entabuladas peripécias de uma dialéctica arcaica e estética. Há jardim.

Discute-se as próximas medidas. Como fazer crescer o reino, como desobstrui-lo dos interesses paralelos e estéreis dos Távoras, como encabeçar este País em que a anarquia é a regra real por detrás do mundo de regras.

O mesmo num hemisfério carnal se define, a dança de egos no planeta de Ser. Regra delineada pelos Antigos. Circunvalação. Pelo diurno e nocturno, cintilam prosaicas distâncias à luz desse mesmo firmamento. E regras e protocolos por detrás dos quais é sobretudo o querer mais e mais, e o estabelecer-se socialmente o poder de quem o detém. Toda uma constelação que se define contemporânea de Newton. E hoje se conjectura cómodamente por encostos, nesta confraria de almas que é também caudal de cometa.

De súbito nasce poética e bela uma espontânea imperativa. Aniquilá-los. Que linda e preciosa semente, que perfeita antevisão de rosas sublimes e seus espinhos. Empolga-se a burguesia, os médicos entusiasmados à medida que a imaginação rasga e perfura a pele da dôr para deixar sangrar e florescer toda a fertilidade da sede e dos solos de sua sede.

A criada traz agora um requintado aromático vinho, enquanto os presentes encarecidamente discutem os instrumentos que mais cirurgicamente poderão dar voz ao festim da mortandade. Como a altivez do horror, um belo sol vem agora incandescer o fim-de-tarde, enquanto num entusiasmo soberbo se saliva e limpam-se os dedos, após a dupla dentada nos gomos sumarentos como as veias mais nobres. Um prazer místico cresce e funde-se com o propósito e a sociedade. Instala-se neste promissor Verão, para além dos planos de metas e conspirações genuínas, e por entre as finas dobras de tecidos voluptuosos, o real sabor do sangue na acidez da laranja.

Mancham-se as vestes de mais que um sentido de Estado que transborda. Enleia-se no formalismo das almas o vinho e a fulvura de seus encantos. Verte também na alma o requinte da crueza com que a lâmina repartirá cirurgica a opulência da classe mais alta, estrebucha na alma a mesma vítima inesperada e de suas gôtas vitais a rubra intensidade de seus berros, enquanto sábias mãos estudam a fundura de suas vísceras e se enaltecem da real putridão de seus fígados, enquanto os dentes mergulham e testam a suavidade dos pescoços trémulos e o som de seu pânico se engasga e escorre e morre lentamente.

É Noite; o Sonho desponta. Alto por fim o seu alvor redondo e completo. Ritual e transe acariciam aos poucos esta imagética comum. Fervilham palavras primeiro. Alguém sugere, divino: e se brindássemos mais que o próprio brinde? Ao princípio ninguém percebera. Nem o próprio. Levantava-se taças, ecoando pelos ares o tinir da anunciação. Bradava-se, as gargantas mais e mais inflamadas do pudor e o seu esvair-se acompanhando a secura. Porém, e agora que a Lua tudo ilumina, cedo as mãos se roçam também, ao princípio como parte integral e secundária dos movimentos, inevitável dada a expressiva força do embate. Entanto, de toda esta cosmogonia cedo se clareiam as peles de uma ânsia maior, e maior ainda a cócega de sustê-la na fineza de um brinde. E as mãos se provocam ardilosamente à sonoridade do toque. Tlim-tlim. E os punhos reajem fortes à tremura maior, e se estilhaçam taças e o sangue corre fraternamente entre as mãos que se percorrem e os caracóis que se entruzam, e é com a filosofia maior dos corpos que do Universo dos Gregos o Esplendor de Roma se promulga hoje neste anfiteatro supra-político. E as mãos decretam a Nova Ordem com o ênfase com que no sexo alheio depositam o ardôr de se entressugarem visionários.

...

Que vórtice de conhecimento! Que pasmo e êxtase, o do palato no qual se disseca o amargo do sémen. A real soberania, escrita na biologia dessa real semente. A Magia de que se tingem as rosadas feições dos homens dessa era. Deus contido no Hirto Falo de Todos. Espuma divina com que um mar violenta toda a planície de uma Pátria ou cultura.

E os Homens embrenham-se em lenda e futuro. E os sonhos canibais explodem entre o amor conforme o ditara a necessidade. E a Liberdade, conceito tão másculo e penetrante, cada vez tão mais perto, como a respiração quente do Conde saciado... O Amor pungente, e o extermínio dos Távoras, e o desfolhar-se a mística das árvores e do centenário... E uma criada que se afigura claramente a oferenda ideal para a divindade do Amanhã, que é esta noite... E as almas entrusadas que se alinham em experimentação da mais sórdida e profana...

...

Do Esplendor da Noite, um pequeno montículo por entre os canteiros e um cão que por algum motivo insistentemente fareja em seu redor. Percorre a Aurora as recordações enterradas. Complacente da serenidade com que a manhã lava as côres do jardim, instila e contempla o Marquês, encostado à mesinha do Ontem, um terno sabor a Morte.

«Alguém viu a criada?» pergunta a Marquesa.


Êxtase, caos, destruição, vento, que sopra e que sopra agreste as paisagens, o inferno, a imagem, o inferno da presença, o interior ...

Território, equilíbrio, desespero, terramoto, fendas de fendas.

A queda.

Extasis flows through the keyboard like emotions rampade through the valleys of image and projection of the soul - abyssic nothingness that is art; meaning, lost.

Found insanity repainting the painting of strangest whirling shades of darkness; hidden desires as abstract as the whispers of the clouds in the everlasting skies.

Lost warriors, their flesh scattered through the impressive woods of fantasy dripping through the gelid of the morning. Remains of civilization, spoils of war, liberator to come, the eclipse shining the all-ever sung apocalypse.

It is coming!

Dissera o poeta: "Ó Portugal, hoje és nevoeiro..."

Digo eu (e ele) - É a Hora!

Que a Terceira Vontade
se imponha no amarelo
do negativo sem belo.

Que haja Voz e Liberdade!

Que se retrate do caos
a beleza de eu sê-lo,
a morte de eu vivê-lo.

Do vazio vácuo as naus!

Do clássico rompante
dos mares sempre a montante
há a enorme montanha!

Do turbilhão a cidade.
Ruínas e claridade.

Um topo, ao qual tudo acama.


(De terça-feira:)

Das fórmulas o fascínio, o mote para uma navegação esta em que é pântano o diálogo de crocodilos e mosquitos que são a adrenalina ou o momento, instalando-se muitos e discretos. A cafeína dilui-se nas veias como um composto qualquer incómodo, ao qual se pigmenta o explorador do chapéu inglês numa queda transversal às golpadas de ombro e face com que a vegetação cumprimenta verde e mística o celofane dessa rede circense que sustenta mal o peso das circunstâncias e consequências. Ora o megafone existe então, num peito químico como a fórmula do fascínio, que inaugurara todo esse mesmo espaço, por espectador os primatas assentes na bancada arbórea e o seu ruído, frutífero entre pontuais raios de um solar e agressivo holofote, algures entrevendo-se a arranhada resistência sobre o bote.

Dá-me um par de estalos, a frase rompante e masoquista que é o tigre que listra adjacente o percurso, ora mais e mais o salto pelo aro de fogo em que arde a rejeição e o espectáculo. Um esvoaçar de aves, uma bala de um canhão, mais um café, e os gritos e o terror quando o denso verde se acastanha espiral e a madeira cede num rugido faminto e o avião que era a narrativa se propaga na descida nebulosa e a aceleração é ora propagação explosiva, reservatórios inflamados num horizonte temeroso ou pós-guerra. A chama, anunciação dissidente do além-mar, distância medieval e monstruosa. Abíssica dentada desfere o felino ainda, insaciável como a vida.

Então, Ele escreve a petróleo no fundo e à tona do mar que proclama a fornalha comum. «Não há lugar para ventos de intersecção no vácuo do texto!» Sopa de letras que se esboça aérea, a distância ilusória dos pára-quedistas estropiados de centelhas nessa chuva apocalíptica.

Ego que colapsa e ricocheteia ante o tecto e solo de si mesmo. Ecoa ou reverbera hoje num curto lapso de percurso, por esta boleia em que o tédio traz ao lar a novidade, e ante este exercício de exposição artística em que o monóculo de apreciá-la é uma distracção nocturna, recai pois como um estilhaço de monóculo uma verdade inesperada por detrás de uma imponderada análise do impacto. Não no espelho de uma qualquer sala mas do outro lado, a própria imagem. Cai súbito sobre a distracção a noção clara como um quadro de museu, que lá dentro da obra que espelha, está algo de igual, perfeitamente igual a mim mesmo. Não igual em como sensações ou expressões se fazem assemelhar, tão pouco igual em uma determinada metade de um todo. Igual em como uma equação faz equivaler duas expressões diferentes da mesma matéria, matéria de um outro planeta indeterminado. Matéria que contém em si um raro ensinamento inexpressável, uma rara síntese e centro de diversos pólos de existência, algo que só quem conhece tão profundamente como ao próprio pode identificar.

Estranhamente esotérica na fotografia, a clareza desta nascente é de uma evidência tão transparente que se estranha. Era essa então a consistência inexplicável do rio, aquela ténue assinatura ou resquício vibratório de sua ondulação era afinal uma familiaridade inconsciente, sensação invulgar e de difícil cifra dada a rareza de tal simetria na passagem distorcida.

Desemboca-se pois num limiar emparedado mas que é também equivalência, e há beleza nisso, não havendo própriamente porto qualquer nisso. Resta só a questão próxima: aonde me leva este um café mais.

domingo, novembro 06, 2011


Que a loucura se instalou quieta.
Pelos passeios do passado veio a pé
dissimulada de pedinte ou de André
a tomar conta da esquina onde inquieta

se espartilha a viagem, linha recta
de um encosto ou consolo que era fé
por templos urbanos fáceis. Nhé.
Da rotina a paz de alma ora insurrecta

era falsa e veio baldear o instinto
a imagem de uma esquina em que pressinto
um vendaval de estilhaços de casas

e lestos membros voadores que finto.
E tudo isto dissoluto em absinto -
tudo isto, envolto em nuvem de traças.


O êxtase do absurdo...

Outra vez as paredes ganham disformes colorações e astros se entrenham na clarabóia translúcida de um céu estranho.

Estética infiltra-se no sentimento. Loucas projecções astronómicas de um ser inflamado e que se eleva, azul forte e paralelo pela bruma.

Por cauda os cabelos revôltos, crescentes e em passagem. Iconografia e o extravazar de loucura a tomar conta de mim-noite.

Um "Ah" perfurante a interjeição. Caem e recaem crivações e crispações o colo de um chôro novo - parto, parto e parto ainda.

Espécies num parto único - a pequenez da ficção a marcar pungente o idioma e universo. A loucura outra vez. A loucura ainda e sempre. A loucura aqui ao meu lado, a ditar e a escrever o ribombar de mais este relâmpago. Céu físico por cima, tão por cima, tão pesado...

Brilho amplificado agora, vidro estilhaçado agora. Música que esmaga, música que alaga de caos e brilho estes.

A agressão de ser em reviravolta inesperada, toma conta e destrói. E é todo um Nada. Que se pinta que se vive. Tôda a míriade antiga do que é dentro e sempre o foi. Toda a miríade sonhada cada vez mais forte e imagem. Confusão mais e maior, o espanto, um quase terror! De tudo isto e o volume e tudo isto mais.

O medo de levar-lhe a mão e ser real... o medo de levar-lhe a mão e estar ali. Todo este sem-fim... (momento crédulo)

Por um momento mais,

deixa-me vivê-lo, deixa-me querê-lo, este pedaço mais

de loucura em meus anais,

de loucura em meus quintais.

E era uma selva,

que se cerra.

sábado, novembro 05, 2011


Por entre as trepadeiras do quintal
um desalento verde e o mural
de haver o vento a agitá-las e um sinal
de haver a alma a abandoná-las e a cal.

Espaço de desmazelo; uma miragem
que é todo um novelo e é a aragem
as garras afiadas, uma margem,
a loucura afiada em camuflagem

e uma arte que se esconde no ruído
do soneto ou da pistola o alarido;
dar forma à côr de haver um sentido

no barco que navega esse instante
parado em ser pintura o almirante -
pincel, tigre, arma, um rio vazante.


A caminho; os contornos
de nada com nenhures são
por entre nenúfares o não
entendê-los; claustros mornos

que ilustram a poesia
de ser que, mais uma vez,
o desdizer de um português
entrusado em distonia.

Sua loucura uma que sua
ao calôr de não soá-la
e extravaza feita a mala
o rio que é o brilho da lua

e o frio dos glaciares -
epicismo, uterina nostalgia,
ou lembrança outra ainda mais vazia
que ecoa pelos cantos lombares

o trote nessa mesma planície,
estepes de o sonho perpassar
a gaivota, o momento a sobrevoar
a viagem e o vento que esqueci.

Tudo atrás; para trás, lá atrás
ensinamentos que perdi
nos entroncamentos que vivi
sem saber quando e onde - tanto faz.

Alma que vagueia à sua sombra
e é de mim escrevê-la um outro eco
o sentido que vagueia e é o beco
em que se perde e chama de penumbra

a luz do passado e o escuro selo
de a poesia perder significado
à luz de um candeeiro tresloucado
em não iluminar que o amarelo

do papel da carta sem destino
e um adeus que por ela estrebucha
entre os dedos e uma rosa murcha
que um dia floresceu sem destino.

E assim se perde aquilo que era
a pureza de um poema sincero
por uma turva fogueira; incinero
a correspondência e é sincera

da chama a transcendência e bela.
Todo um vermelho que é quente e diz
aquilo que em mim derrete, e diz
a perda que em mim verte o som dela.

A crepitar, o nocturno do oceano
é em meu lar uma quimera velha.
Nada é mais verdadeiro que a telha
que alberga esta fera e este insano.

Loucura fora de era, a minha sina.
Palavras sem cabimento. Destroço
origamis e o momento e um qualquer esboço
da morte em sua dobra, a lamparina.

Desfaço a alma num sofá gelado
e regresso aqui ao sítio e à sala
onde a orgia do poema é a tala
de quebrá-la e ao gesso molhado.

Mil esboços negros e a loucura
a única acompanhante. Mar quebrante.
Insurreição e advérbio a juzante.
A espuma ele engasgar-se em sua usura.

Imagens de arcaboiço num trejeito
de dar forma ao informe de a curva
se ter dado por ali onde era ruiva
a côr de a maré ter passado. A eito.

Soçobro colorido que desfaço.
Mar agora desgarrado que abraço.
Café que tomo e é um outro braço.
Dôr que pinto agora, fim de maço.

Adormeço e pinto em mim uma nuvem
descrevendo a cinza de um cigarro
que é ainda um comboio e desamarro
dele a tinta, o trilho e a fuligem.

Para uma fantasia ainda há tempo.
Para uma variação de uma morte
há sempre espaço e a agonia consorte
é sempre do agrado no seu tempo.

Que desvaneça pois todo o espectáculo,
fluxo de rio no mar do vernáculo
onde há sempre do polvo outro tentáculo
a abraçar dançante este espectáculo -

o momento que antecede o seu veneno.
Incerta a dança - abismo ou sintonia,
ondulação que entrança a alma em maresia
de uma alga formar um sonho pequeno.

As partes de seu côrpo a última voz
estendidas ou debruçadas na areia
de dizer ou procurar o que clareia,
e a dôr por fim do não alcance, a sós.